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Em 2013, no início do blog, eu escrevi um texto falando da dificuldade que nós negros temos para encontrar maquiagem. Do alto de minha ingenuidade, eu falei que a indústria não era racista, mas hoje, depois de pesquisar com aferro o tema, eu volto para escrever sobre a função dos primeiros cosméticos destinados a nosso tom de pele e provar que hoje não é bem assim.

Eu não encontrei o momento exato do surgimento da cosmética negra. O trabalho da historiadora Giovana Xavier mostra que foi a partir de 1900 nos Estados Unidos. Já no Brasil, segundo a também historiadora Maria Aparecida Lopes, foi em 1920.

Nessa época, as marcas pensavam consumidoras negras e brancas de maneira diferente. Enquanto os anúncios de cremes e sabonetes para pele clara incentivavam asseio e cuidado, os direcionados para pele negra, sem nenhum malabarismo textual, propunham clarear e remover a cútis.

Segundo Giovana Xavier, a cosmetologia dialogava com o movimento eugênico higienista, duas teorias que se preocupavam com a pureza caucasiana e as condições de salubridade no espaço urbano. Desse modo, as empresas medicalizavam a beleza e colocavam a questão de ser bonita não como um capricho, mas como uma questão de limpeza e preservação racial branca.

Limpar a pele, antes de mais nada, significava clarear. Desse modo, os produtos garantiam a solução para o problema de feiura e colocava isso como aspecto primordial na vida das mulheres – não muito diferente do que vemos hoje nas revistas femininas, correto?  Mais do que uma simples pele clara, esse atributo conferia respeito, além de assegurar autoestima, sucesso pessoal e profissional.

Nessa época, as grandes marcas procuravam embelezar eliminando a cor escura. A indústria que mira no clareamento artificial da pele é chamada de bleaching. E se você está pensando que é coisa do século passado, é porque ainda não viu toda a polêmica em torno do Whitenicious by Dencia e sua eficácia nos resultados.

Impossível não ficar assustado com a história de Fraink White e as atualizações que ele fez ao longo do clareamento da pele. Se não fosse pelas tatuagens nos ombros, eu diria que era outra pessoa.

Recentemente a cantora estadunidense Azealia Banks publicou um vídeo confirmando ter feito clareamento de pele. A artista é conhecida por se posicionar em prol do movimento negro e disse que realizou o procedimento para disfarçar cicatrizes, e não por falta de amor próprio.

Porém, em abril desse ano, um fã a questionou no twitter “porque clarear a pele? ” e ela respondeu o seguite: “Depressão. É confuso ver mulheres brancas/de pele mais clara saindo na frente enquanto têm músicas piores que as minhas”. Tanto o vídeo quanto o tuíte foram excluídos em seguida.

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Cabe reconhecer que a busca pela beleza nunca caminhou ao lado da futilidade porque a indústria cosmética, principalmente a direcionada aos negros, mostra questões políticas. É interessante pensar que a maioria das marcas de maquiagem nunca estiveram dispostas a valorizar a nossa beleza, seja não fabricando cores adequadas nem nos estampando nas grandes campanhas publicitárias.

De 2013 para cá, o mercado brasileiro de maquiagem tem mudado. Eu fiz uma pesquisa com as marcas mais populares que operam em solo nacional e cheguei a seguinte conclusão: não temos a atenção que precisamos e, quando pensam em nós, o produto custa mais caro. E a situação só complica para quem tem a pele retinta. A única exceção é a MAC Cosmetics que possui desde cores muito claras até muito escuras na linha mais barata – mas que ainda custa caro.

Saiba o valor para cada tom clicando nas barras “pele clara”, “pele escura” e “pele retinta”. Passe o mouse por cima de cada faixa para ver o valor.

É importante eu dizer que faz parte dess kit de maquiagem apenas produtos de pele, tais quais a base, corretivo e pó. Eu não levei em consideração outros itens, como batom ou blush, por não acreditar que tem uma cor adequada para negras ou brancas. O gosto de cada um determina isso. Também tenho consciência que não existe apenas dois tons de pele negra, mas a pesquisa ficaria inviabilizada se eu levasse todas as possibilidades da negritude. Com relação ao preço, analisei o mês de junho. E eu não incluí na pesquisa os pós translúcidos.

A indústria é ou não racista?

O problema está muito além da ciência e tecnologia dos cosméticos. A indústria, por si só, não é racista. Ela é pensada e mantida por pessoas de carne e osso. Eu prefiro acreditar que essas pessoas tenham um baixo nível de consciência de suas práticas nas representações de raça.