black-lives-matter

Sem nenhuma vergonha, eu venho aqui dizer que eu sofri racismo da pm. Escrevi esse texto no dia do acontecido, na quinta-feira passada, mas só tive coragem de publicar hoje.

Cá estava eu indo para faculdade quando dois policiais, um homem branco e uma mulher negra, pararam a van e mandaram todos descerem com a mão na cabeça, primeiro os homens e depois as mulheres. Eu estava sentado na janela e me assustei porque eles apontaram a arma para dentro do veículo.

Conforme a polícia ia examinando, os passageiros iam sendo liberados. Mas a revista dos dois únicos jovens negros da van foi diferente. Eu e mais um rapaz que não conheço fomos revistados e mantidos com a mão pra cima.

Após revistarem os corpos, hora das bolsas. Minha mochila foi a primeira a ser aberta (no total, eles pediram para ver três vezes porque, afinal de contas, uma mochila de um jovem negro é um esconderijo de drogas e armas em potencial). Até uma senhora com seus 70 anos foi apalpada.

Eu e o rapaz fomos colocados de canto porque, veja bem, ainda continuávamos suspeitos após duas revistas. Um dos policiais repetia incisivamente: “Onde está a arma? Eu sei que você está com droga” para o moço que estava ao meu lado. Eu fiquei constrangido por mim e por ele porque a van foi parada em uma praça movimentada e todo mundo estava reparando. Até os carros paravam para olhar.

Hora de examinar o veículo. Parecia que eles tinham certeza que iam encontrar alguma coisa pelo jeito que buscavam. Uma observação que eu fiz foi que tudo que a policial fazia, o policial repetia depois dela, como se ele não confiasse no trabalho da parceira. Machismo? Depois que ela verificou o carro, ele entrou para fazer a parte dele e falou exatamente assim: “Aponte a arma para ele [para o rapaz que estava ao meu lado]! Se ele tomar alguma atitude, meta bala por minha conta!”

Eu já estava nervoso e com medo. Homicídio é a maior causa de morte de homens da minha idade aqui no Brasil. A polícia brasileira é a que mais mata no mundo. Centena de milhares perdem a vida todo ano perfurados por balas vindas de agentes públicos. Homens negros e pobres são o principal alvo. E quase nenhum policial é investigado por essas mortes (o “quase” aparece aqui apenas por simpatia).

Voltemos ao relato. Após todas as revistas (duas em mim, incontáveis no outro rapaz), nós fomos dirigidos ao posto policial. O local estava vazio. Naquela hora, eu tinha certeza que sofreria outros tipos de violência. Começa aqui outra revista. Sim, mais uma. E dessa vez minuciosa. Mandaram o rapaz ficar pelado. Comigo, só mandaram eu suspender a camisa. A diferença entre mim e esse moço que sofreu muito mais constrangimento do que eu era visivelmente a classe econômica.

Então pediram pra ver nosso WhatsApp. Eu quase me recusei, mas eu tive medo e mostrei mesmo assim. Perguntaram se o outro rapaz estava com a nota fiscal do celular. Gente, comentem aqui se alguém tem o costume de andar com a nota do celular porque olha, não conheço ninguém que ande com a comprovação de qualquer aquisição.

Tomaram nosso documento para ver se tínhamos passagem pela polícia. Eu já estava convencido que tinha feito alguma coisa de errado e não sabia. Vejam que eficiente esse tentáculo do racismo: ele me fez sentir culpado por algum crime que eu jamais teria cometido. Mas é que o problema sempre é nossa cor, né?

Nesse meio tempo de averiguação, eu perguntei a policial o que tinha acontecido. Ela respondeu que foi uma denúncia anônima. Alguém telefonou e disse que dois suspeitos tinham entrado na van e que um estaria armado. Mas ela respondeu isso sem muito contato visual. Distraída com o celular, a policial já não me encarava como antes. Ao que me parece, ela sabia que estava sendo abusiva e reproduzindo racismo.

Quando o policial voltou e disse que estávamos liberados, eu explodi. “Porque você fez isso?”, perguntei. “Foi uma denúncia anônima. É pra sua segurança. Você entende?”, ele disse. “Vocês recebem uma ligação anônima dizendo que haveriam dois suspeitos no carro e automaticamente os únicos jovens negros se enquadram nesse perfil?”, indaguei.

Gaguejando, ele falou que descreveram os suspeitos assim, como “morenos”. Eu perguntei que horas eles receberam a ligação e ele respondeu: “mais cedo”. “Mais cedo que horas?”, insisto. E ele só: “mais cedo”.

Pego minha mochila e volto para a van. Nessa hora a vergonha já estava a nível master. Não consegui olhar pra ninguém do carro, que estava em silêncio e permaneceu assim metade da viagem – o silêncio só foi quebrado porque um amigo me ligou e eu atendi. Todo o processo aconteceu em dentro de 30 minutos.

Se você é policial militar ou algum tipo de agente de segurança, saiba que eu tenho medo de você. E se eu tenho medo de uma pessoa que está trabalhando para promover minha paz, é porque alguma coisa está muita errada. Não fiz B.O. por motivo de: quando denunciar um policial na delegacia teve resultado? Eu só iria me expôr e possivelmente sofrer algum tipo de perseguição.

Por sorte, eu sobrevivi para escrever esse texto. E se lá dentro do módulo policial eles plantassem alguma prova em meu bolso? E se eu tivesse levado um tiro? Minha morte talvez estaria silenciada, como uma porrada de outras por aí. Eu desabafo para todo mundo saber como é difícil ser negro e existir ao mesmo tempo.