Entra ano, sai ano e o tema beleza sempre está no centro das discussões aqui no blog. Poderia abrir espaço para outros assuntos “mais relevantes”, como já me foi sugerido, ainda mais agora com essa crise política, mas eu não concordo com essa abordagem.

Primeiro que estamos diante de um tema muito vigoroso economicamente falando. Segundo pesquisa da Beauty Plan 2016, 57% das entrevistadas não pretendem deixar de gastar com maquiagem mesmo com esse turbilhão de coisas acontecendo. Acha pouco? Para o SPC Brasil, sete em cada dez brasileiros acreditam que gastar com beleza não é luxo, e sim, uma necessidade.

Depois que a maquiagem jamais deve ser vista como futilidade. Mulheres negras já explicaram que valorizar os traços com maquiagem é muito mais do que uma questão de estilo, é uma forma de afirmação identitária. E que justamente por isso devemos levar o assunto a sério.

Sabe quem também pensa assim? Chimamanda Ngozi. A nigeriana faz parte dessa nova geração de escritoras feministas e no final desse ano foi rosto da No7, marca de cosméticos da rede britânica de farmácias Boots. 

Em entrevista ao Rocked, ela disse que topou fazer parte da campanha porque queria passar a mensagem de que mulheres têm coisas importantes e sérias para fazer, mesmo gostando de maquiagem. E mandou a real: “Eu acho que é hora de parar com essa ideia ridícula de que, se você é uma mulher séria, você não pode se preocupar com sua aparência.”

Ela disse que, assim que se mudou pros EUA, percebeu que para uma mulher ser levada a sério e ser vista como uma “pessoa intelectual”, ela não podia se preocupar com sua aparência. E está tudo bem se você não se importa, ok? Chimamanda fala que tem amigas que não ligam e que admira isso nelas. Mas que ela, assim como tantas outras, ama.

“Por um tempo eu achava que não podia em hipótese alguma usar o batom que eu queria porque seria julgada. Mas isso mudou conforme fui ficando mais velha, mais confortável na minha própria pele e aprendendo que a vida é curta demais. Não há nenhum propósito em viver a vida baseando-se no que você acha que as pessoas esperam de você.” E tudo isso diz respeito sobre empoderamento.

Semana passada eu vi uma grande empresária do ramo da beleza dizer que odeia a palavra “empoderamento”. Ela tem todo direito de não gostar. Mas, para mim, o termo tem um significado especial porque me ajudou muito no processo de reconhecimento enquanto negro. A noção de pertencimento não foi algo que me veio naturalmente.

Eu até entendo que ela não goste do termo. É muito fácil odiar a palavra quando se tem a pele branca e não ter precisado lutar, reivindicar e defender sua posição social, quando se pertence a uma identidade seguindo apenas movimentos óbvios simplesmente pela ausência de competidores.

Sabiamente, a escritora me contempla quando afirma que, apesar de estar passando por um momento estranho nos Estados Unidos, tal como a crise política no Brasil, ainda precisa saber qual creme funciona no inverno. Se preocupar com uma coisa não exclui outra. E a maquiagem não deve ser moralizada.

E sabe o que mais? Talvez esse texto nem necessitasse existir. Chimamanda não vê ninguém conferindo ao gosto tradicional masculino o título de frívolo. Ela contesta que os homens que escrevem sobre esporte, por exemplo, não estão necessariamente preocupados em parecer fúteis. Então, sobre 2017: vai ter muita maquiagem, sim!