Imagem em tons de cinza, onde uma mulher negra de black power se olha através de um espelho. Ela está maquiada e veste preto

Desde o início do meu trabalho como maquiador e jornalista de beleza, eu tenho contato com muitas mulheres negras inseguras com relação a sua aparência física. Entrei no mercado em uma época que, por exemplo, ninguém usava batom escuro, só um rosinha bem sem graça num tom que, ao meu ver, só ficava bonito em gente branca. O ano é 2012 e meu público tinha medo de realçar seus lábios grossos. Medo de chamar muita atenção, de deixar a boca maior, do olhar do outro.

Eu sempre rebatia os comentários com um “pode passar batom escuro, fica lindo”, mas no fundo eu compreendia esse receio. Eu mesmo já odiei minha boca, me sentia péssimo com ela! Mas depois eu comecei a enxergar beleza em meus traços e nos de outras pessoas.

O mito da beleza consiste na disseminação de imagens do ideal de beleza em voga e eu sempre percebi o papel central que a comunicação ocupa nesse debate. Foi então que eu reparei nas imagens que os maquiadores brasileiros compartilhavam nas redes sociais e fazia exatamente o contrário: lotava o feed das seguidoras com referências negras, fotos de “antes e depois” de clientes comuns ou de pessoas que via na rua e chamava pra maquiar.

Foi assim que eu assisti a primeira vez de muitas mulheres negras apreciando seus traços. Nunca fiz questão de afinar o nariz ou disfarçar os lábios volumosos. O racismo é tão bruto em nos fazer acreditar que somos feios, que é preciso alguém falar que essas técnicas não são necessárias pra embelezar o rosto.

Nos cursos de automaquiagem isso ficava muito claro. O mais importante nunca foi aprender a fazer um delineador gatinho ou um olho preto esfumado, mas sim passar algumas horas na frente do espelho. Muitas mulheres tem medo disso. E aqui a maquiagem entra como pretexto para você reconhecer e valorizar seus traços.

O mercado brasileiro de maquiagem passou a nos favorecer nesses últimos anos. Em uma caminhada tímidas, as marcas começam a notar o público negro como consumidores em potencial. Mas ainda custa mais caro maquiar uma pele negra, como mostrou a pesquisa “Tem Minha Cor?”, realizada em 2016.

O atendimento também mudou. Com o advento da internet (e das dicas de beleza), consumidores chegam muito mais preparados para escolher, por exemplo, o seu tom de base, umas das principais dificuldades na hora de se maquiar.

A valorização da estética negra com maquiagem jamais deve ser vista como frivolidade, e sim como uma ferramente para reconstruir a autoestima de mulheres que foram danificadas pelo racismo. Toda essa história que eu contei descortina preconceitos que precisam urgentemente ser superados.