Com uma oferta gigante de material e um fluxo de informações maior ainda, fica até difícil escolher o que escutar, ler e assistir. As recomendações de amigo pra amigo viraram indicações de algoritmos que agora ajudam a construir nosso gosto. Por isso, quero aconselhar artistas nacionais e internacionais que marcaram meu ano na música, literatura e cinema, numa maneira de aproximar o trabalho de criadores negros. 

Começando pela leitura de minha vida (depois de muito refletir, digo isso com convicção), nós temos Hibisco Roxo, da nigeriana Chimamanda Ngozi. A escritora, que já foi rosto de campanha de cosméticos, joga do nosso lado quando o assunto é valorização da beleza negra. Ela disse que “é hora de parar com essa ideia ridícula de que, se você é uma mulher séria, você não pode se preocupar com sua aparência”, entendeu?

Em um romance que mistura autobiografia e ficção, Kambili, a protagonista e narradora do livro, se vê diante dos efeitos da colonização branca europeia, das agressões físico-simbólicas do pai machista e de questões políticas da Nigéria atual. Ao passo que ela vai se desprendendo da educação opressora do pai, ela vai descobrindo outras formas de vida e de amor.

É um livro muito forte, já adianto, porque mostra como o machismo age na vida das mulheres, principalmente na das meninas, de uma maneira que eu nunca tinha parado antes pra pensar: as violências começam bem sutis e vão progredindo.

Dentre as obras nacionais, a melhor leitura foi de Lázaro Ramos com Na Minha Pele, que inclusive ganhou este ano o prêmio GQ Brasil de Homem do Ano na categoria Literatura. O livro traz experiências pessoais e profissionais do ator, desde sua infância em Salvador, até sua mudança para o Rio de Janeiro.

Lázaro convoca o leitor a conhecer o preconceito que se fez presente em muitas partes de sua vida, como tem feito pra proteger os filhos das armadilhas sociais que são acometidos, como o racismo que a pequena Titi sofreu, além de apontar espaços de discussão do tema, como canais no YouTube. Poucos nomes reconhecem a plataforma como espaços legítimos de discussão.

Foi o primeiro livro que me instigou a saber mais sobre minha árvore genealógica. Eu já tinha lido outros autores que tratam sobre acentralidade do povo negro (e da falta dela), mas ler das palavras de um cara com proximidades físicas e sociais, foi diferente. Fiquei curioso pra saber o que veio antes de meus avós, principalmente os maternos que são negros.

Uma mistura de hip-hop estadunidense com reggae jamaicano. É assim que a cubana Danay Suárez define seu estilo musical. “Não é tropical nem reggaeton por causa do meu fluxo, da minha produção”, disse em entrevista à Billboard. Desde que eu descobri essa cantora, tenho indicado pra todos que curtem uma batida envolvente com uma letra carregada de emoção e feminismo.

Ela lançou um álbum esse ano, o Palabras Manuales, mas o meu preferido é o Polvo de la Humedad, de 2014. É aquele som que a gente consegue relaxar, sabe?

E quando a gente fala de música nacional, impossível não falar desse movimento maravilhoso da nova MPB (ritmo que eu nunca me identifiquei por não conversar com minha realidade até então). Com tantos nomes na cena brasileira, pode parecer difícil escolher um, mas se parar pra pensar um pouquinho, é importante reconhecer  o som de uma travesti preta favelada.

Pajubá, de Linn da Quebrada, foi o melhor cd desse ano, não só por algumas músicas soarem como poesia para meus ouvidos, mas também por ter acompanhado por cima todas as dificuldades de produção de seu primeiro álbum. Podem falar que é música “baixo-astral” que eu não estou nem aí. As músicas trazem a realidade de um corpo abjeto, com altas chances de ser exterminado.

Ela levanta tantas questões, como de gênero, sexualidade, raça e classe, que quase esquecia de falar o gênero musical. É uma mistura de pop com funk carioca. Mas se fosse sertanejo, eu tava quietinho escutando tudo que Linn tem pra dizer do mesmo jeito!

Todos os nomes que apareceram até agora são de pessoas negras, menos os que viram a seguir. Eu amo cinema, mas ainda sinto dificuldade em me desprender das grandes produções de gente branca que facilmente acesso. Por isso, peço licença para que eu possa recomendar uma produção muito boa, porém com pouca diversidade de rostos.

The Handmaid’s Tale foi a série do ano. Ponto. A série mostra como uma sociedade totalitária, baseada no fundamentalismo religioso, retira o direito conquistado por mulheres. Agora, nenhuma delas tem acesso à educação e sua função no mundo foi reduzida aos deveres biológicos da reprodução. Mas nem todos os casais podem engravidar. Entra aqui o papel das aias, mulheres férteis que são caçadas pelo Estado para servirem sexualmente esses casais.

É tudo assustador na série. As cenas de estupro me dão angústia só de lembrar! A história é tão absurda que algumas críticas apontam para um futuro distópico. Críticas essas feitas por pessoas que não acompanham os noticiários nacionais, pelo visto.  A gente vive uma fase onde os direitos estão sendo ceifados aos poucos e ninguém se importa! E pensando de maneira bem otimista, se as coisas continuarem do jeito que andam aqui no Brasil, não deve demorar pra chegar na realidade da série, já que os sinais estão aí, pra quem quiser ver. Quer uma prova?

Coincidentemente, eu assisti um dos episódios (não vou explicar pra não soltar spoiler) no mesmo dia que aquele vereador estúpido disse que iria prender Pabllo Vittar se ele fosse fazer show em Ponta Grossa, alegando que ofenderia os cidadãos de família daquela cidade. Já pensou se fosse alguém com poderes de realmente fazer aquilo? Pense bem em quem receberá seu voto ano que vem.